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05 de Março de 2017
por Olga Leiria, de Rio de Janeiro Categoria: Cultura | País: Brasil

 

Texto e fotos: Olga Leiria



Ao ver o grande espetáculo do desfile das escolas de samba, não imagina como é árduo o trabalho. Meses costurando, bordando, construindo, criando, soldando, refazendo, pintando, demitindo, contratando. Noites de descanso, trocadas por noites de ensaios e trabalho. Tudo é feito no amor, na raça, no talento.

Chegado o dia do carnaval, todo o esforço está concretizado. O ponto do início do desfile é a avenida Getúlio Vargas, no centro da capital fluminense. O local é tomado por carros muito diferentes dos tradicionais do dia a dia, com suas buzinas e motores que ecoam entre as árvores quase impercebíveis da via. Carros alegóricos colorem a avenida, fazendo com que os olhos não cansem de admirar, sua formosura e grandeza.

Aos poucos, os integrantes vão chegando sozinhos ou em grupos de todas as direções. De metrô, ônibus, vans. Alguns já fantasiados por inteiro, alguns com metade e outros ainda por tomar a identidade daquela noite. As fantasias ficam em sacos plásticos ou sacolas de TNT, quase maior que o componente. Ao parar e olhar o vai e vem das pessoas, temos a impressão que as fantasias andam sozinhas pela concentração.

 


Foto: Olga Leiria 

Bastidores do carnaval na Sapucaí, Rio de Janeiro. Foto: Olga Leiria 

 



Foto: Olga Leiria

Componente da Tuiuti nos bastidores da Sapucaí, Rio de Janeiro. Foto: Olga Leiria 

 

Nesta noite de carnaval, São Pedro foi batizado no altar do samba, para padrões cariocas 27ºC está agradável. Mas as fantasias não colaboram muito com a temperatura, são tecidos quentes, forros de espumas, texturas que pinicam, adereços de cabeça que não páram, elástico que solta, calçados pequenos outros grandes, dois pés esquerdos para a mesma fantasia, armação de ferro que precisa ser acertada para o tamanho dos ombros da passista – falta força para apertar, botas com zíper estourado, pintura que acaba, purpurina divida entre amigos, tintura para a pele, um dedo emprestado para um laço, cola para a fantasia que foi danificada, toalhas e sacolas plásticas colocadas nos ombros para que o adereço não machuque, cabelo que enrola no velcro da fantasia, roupas pesadas, como as das baiana que tem em média 30 kilos e seis metros de diâmetro, saltos muito altos para sambar, e muita ajuda entre todos. Alguns no meio de toda a agitação e gritaria preservam instantes para rezar e pedir à Deus.

Na concentração as histórias contadas de outros carnavais, que se misturam com quem está há mais de 60 anos desfilando, com a ansiedade de quem está estreando pela primeira vez. “Tomei três injeções para o meu reumatismo no joelho hoje”, conta dona Norma Nogueira de Souza da Silva, 68, diarista, que neste ano ia desfilar pela Tuiuti, Mocidade e Mangueira. Comentou que quando era mais jovem, chegou a desfilar em nove escolas em um só carnaval. “Eu morro, se não desfilar no meu carnaval”, diz. O carnaval está na sua alma. Seu pai e irmão eram músicos e sua mãe bailarina de samba (passista).

Foto: Olga Leiria 


Bastidores do carnaval na Sapucaí, Rio de Janeiro. Foto: Olga Leiria 


Sentada sozinha no meio fio, passando a letra do samba, está Davina Randriamanatsoa, 31, professora de samba em Paris. “Desfilar é emoção pura”, comenta ao falar sobre o desfile. É seu quarto ano de carnaval no Brasil, este ano trouxe 15 alunas para conhecer o carnaval brasileiro.

Mais adiante está o panamenho Júlio Garibaldi, 46, tradutor, residente em Nova Iorque, desfila desde 2003 pela Salgueiro. Ao falar da escola e do carnaval, se emociona e mareja os olhos ao ponto de algumas lágrimas percorrem sua face. “O carnaval e a Salgueiro são como a fé, você encontra seu lugar e não é o que é, e sim ao que pertence.”

Enquanto as alas ficam prontas, o corre- corre e a gritaria está focada nos carros alegóricos. A luz não acende, uma mecânica que não funciona, adereço quebra na hora de terminar de montar, gente do apoio empurrando, o guincho colocando destaques na parte mais alta do carro, nada pode dar errado. Tudo isso acontece simultaneamente em todas as alas das escolas, mas como o trabalho é em grupo, tudo se acerta. Mas o estresse, pressão e a gritaria carioca, é somente para os fortes.

O som da sirene ecoa na concentração, todos gritam de alegria, porque a hora chegou, faltam 3 minutos para o desfile começar. O cansaço tomado por mais de 3 horas de espera na concentração parece sumir como um passe de mágica. As feições das faces mudam completamente. A pele arrepia ao som da batida da bateria se confunde com a batida do coração, os olhos brilham como pérolas na noite, a canção não sai da boca e sim da alma e todos saem bailando no mesmo compasso. E tudo se repete com a mesma emoção com a próxima escola até a alvorada.





Integrantes da Imperatriz nos bastidores da Sapucaí, no Rio de Janeiro. Foto: Olga Leiria

 

Componentes do Salgueiro na concentração do carnaval do Rio de Janeiro. Foto: Olga Leiria 



 

Bastidores do Salgueiro na Sapucaí, Rio de Janeiro. Foto: Olga Leiria

 

Bastidores do Salgueiro na Sapucaí, Rio de Janeiro. Foto: Olga Leiria

 

 

 

Bastidores do Salgueiro na Sapucaí, Rio de Janeiro. Foto: Olga Leiria

 

 

Bastidores da Mocidade na Sapucaí, no Rio de Janeiro. Foto: Olga Leiria 



Bastidores da Mocidade na Sapucaí, no Rio de Janeiro. Foto: Olga Leiria 

 

 

Bastidores da Portela na Sapucaí, no Rio de Janeiro. Foto: Olga Leiria




Bastidores da Portela na Sapucaí, no Rio de Janeiro. Foto: Olga Leiria





Bastidores da Portela na Sapucaí, no Rio de Janeiro. Foto: Olga Leiria



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