← Voltar à lista de notícias

15 de Fevereiro de 2016
por Pedro Chavedar, de Uruguai Categoria: Social | País: Uruguai

Fotos e texto: Pedro Chavedar do Everyday Mogi

Resolvi passar o Carnaval em terras uruguaias junto com minha namorada. A ideia era conhecermos melhor esse pequeno país esmagado entre o gigantismo de Brasil e Argentina, mas com tanta história para contar.

Para não esticar muito, podemos apenas focar no futebol e lembrar que: o Uruguai foi o primeiro país-sede de uma Copa do Mundo e o primeiro a ganhar. Tomamos um baile em 1950 no famoso e trágico Maracanazzo. Há ainda a Celeste Olímpica com o bicampeonato nos anos 20.

Buscamos um jogo por lá. O Centenário estava fechado por causa do show do Rolling Stones. Logo, os gigantes Peñarol e Nacional não estariam na capital. Começamos então e procurar e achamos: Fênix e Sudamerica, no Parque Capurro, sábado a tarde.

 
(Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

O ônibus 124 saindo do centro de Montevidéu nos deixou a duas quadras da entrada do estádio. E ai veio a surpresa: esqueça tudo que você tem na cabeça sobre arenas, padrão Fifa, futebol moderno, século XXI.

Em cima de um pequeno morro, o Parque Capurro não lembra em nada o atual momento do futebol mundial.

Um muro pequeno e totalmente grafitado com mensagens políticas; arames farpados impossibilitavam os saltos para dentro da cancha; meia dúzia de policiais demonstravam a pequena vontade em estar ali; nem 20 torcedores zanzavam pelas duas portas que davam acesso às arquibancadas.

 
Portão ao lado da entrada do Parque Capurro. (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

Os ingressos eram comprados por pequenas janelas. Lá dentro, senhores tomando mate e jogando conversa fora eram os bilheteiros. Cada entrada custava 280 pesos uruguaios (cerca de 35 reais). Compramos para o setor do mandante, o Fênix.

 
 
Bilheteria. (Fotos: Pedro Chavedar/EverydayMogi)
 
Um dos portões de acesso ao Parque Capurro. (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

 

 

Da porta para dentro, a surpresa foi completa.

Não parecíamos que estávamos dentro de um estádio que receberia um jogo da primeira divisão do campeonato uruguaio.

O clima era, completamente, de várzea e do século passado.

Uma pequena casinha, logo de cara, estampava um grande logo do Fênix. E era ali, com a cara na entrada do estádio, que os jogadores se trocavam e entravam em campo. Nada de acesso com pulseira VIP ou credencial para a diretoria. Os torcedores estavam a uma parede de seus ídolos.

 
Vestiário do Fênix. (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)
 
A escalação da equipe é colada na parede. Nada de telão. (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

 

 

Interessante também que, logo na entrada, dezenas de fotos da equipe estavam expostas em uma das grandes da arquibancada.

Descobri depois que elas estavam a venda e eram feitas por um fotógrafo que sempre vai aos jogos do Fênix.

 
(Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

 

As arquibancadas eram de cimento e se misturavam com o mato. Senhores conversaram e tomavam mate, enquanto o sistema de som do estádio divulgava informações, como o de uma importadora de vidros brasileira. Ou ainda mensagens de cunho político, como a de um sindicato que reivindicava o fim do aumento das taxas de luz.

 

 
 
 
Arquibancadas. (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)
 
 
Arquibancadas. (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

 

Destaque ainda para o setor de imprensa. Uma pequena casinha, em cima do setor de tribunas, em que uma escada de obras era a responsável por levar os profissionais para o teto. Todos ficavam na laje.

 
 
“Camarote” da imprensa uruguaia. (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

 

Tirando a fantástica cancha, não podemos deixar de lado os torcedores.

Do lado direito da laje da imprensa, se concentravam os torcedores mais velhos e as famílias. Senhores de camisa social e mate na mão lembravam do passado do clube. Ali era predominante o cabelo branco e os sapatos de couro.

Senhoras de óculos e roupas de dona de casa e crianças com camisetas de Suárez (tanto do Barcelona quanto da Celeste) também preenchiam os espaços da arquibancadas.

 
(Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)
 
(Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

 

Merece destaque ainda o bar do estádio. Nada demais do que um quadrado de dois por dois em cima do morro e que era comandado por três mulheres. Havia água, refrigerante e cachorro quente (bebidas alcoólicas não são permitidas).

O negócio é tão informal que, quando fomos pagar, a atendente não tinha troco. “Depois vocês me pagam. Podem ir” me disse, com um sorriso no rosto e uma confiança absurda de que eu voltaria. E claro que voltei.

 
(Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)
 
(Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

 

Naquele pequeno balcão, um senhor pegou seu copo e ergueu para mim em cima de brinde. Retribui. “America? America?” me perguntou, achando que eu era um norte-americano. “No, no. Brasil” disse. Não mais que depressa, um sorriso saiu de sua cara e um samba começou em seus pés.

Acosta tem 81 anos, é uruguaio e ama futebol. Perguntei quem era o melhor jogador do mundo. “Suárez!!” exclamou. Perguntei se era realmente ele. Acosta olhou para um lado, para o outro e sussurrou: “No, es Messi” e riu. Perguntei o motivo de não poder falar alto aquilo. “Messi es argentino” e riu de novo.

De bengala em punho e uma dificuldade grande para abrir as mãos, Acosta se lembrou com emoção do Maracanazzo e contou que foi receber a seleção uruguaia no aeroporto em 1950.

Acosta arrumou sua boina, pediu auxílio para subir as escadas e se dirigiu para as cadeiras da tribuna.

 
Acosta, 81 anos. (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

 

No canto esquerdo , as hinchadas hasteavam suas tradicionais bandeiras e começavam a se mobilizar.

Dentre eles, estava Chorko, um torcedor do Fênix que tinha sua própriahincha há dois anos. “Por aqui, não podemos trazer bandeira, nem nada. Só essas” comentou o torcedor que também reclamou dos preços dos ingressos.“Por isso que está vazio. Esse valor é muito alto para nós”.

Quando disse que era corintiano, Chorko lembrou de um jogo do Fênix contra o Corinthians em 2003. “Foi em outro estádio. Não nesse” disse.

 
(Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)
 
O tradicional bumbo. (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)
 
La hinchada. (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

 

Não esquecemos de que haveria um jogo ali.

Fênix e Sudamerica entraram separados, cada um por um canto (sem aquela entrada triunfal da Fifa com os times perfilados e música clássica), mas prontamente aplaudidos por ambas as torcidas.

Nada de mãos dadas, também. Os jogadores entraram correndo e bufando. Alguns traziam crianças, mas que também não eram padronizadas.

Houve um minuto de aplausos pela morte de alguém e o som do estádio esbravejou que o jogo começaria.

Com cinco minutos de jogo, choque entre o goleiro e o atacante. Pânico no gramado. Todos saem correndo para o local do acidente. Jogadores com cara de pavor. “Medico! Medico” gritou um torcedor para o profissional que pensava na vida no canto do vestiário. Isso tudo em um estádio em completo silêncio. Depois de quase 10 minutos, chegou uma ambulância e o jogo recomeçou.

 
(Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)
 
(Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)
 
(Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)
 
(Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

 

O jogo era bem fraco. Primeiro tempo com poucas chances de gol e muito pegado no meio de campo. A parte de fora do gramado estavam bem mais interessante do que a bola rolando.

A lentidão da partida fez até a hinchada parar de tocar no segundo tempo.

Coube a duas crianças ficarem batendo no bumbo e na caixa, sem ritmo ou canto. Estava se criando ali um novo torcedor.

Apenas xingamentos aos jogadores adversário e aos torcedores rivais eram ouvidos. Impressionante como eles gostam de xingar a mãe alheia.

 
(Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

 

Por fim, a partida acabou em dois a zero para o Fênix.

O sol já se punha e o estádio banhado pelo Rio da Prata começava a ficar vazio (mas tivemos que esperar 15 minutos para que a polícia esvaziasse o setor visitante).

 
Imprensa desmontando seu “camarote”. (Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)
 
(Foto: Pedro Chavedar/EverydayMogi)

 

 

 

 

Tópicos

futeboluruguai

Discussão

Copyright - Todos os direitos reservados

Desenvolvido por Gustavo Francisco Acesse meu Twitter Acesse meu Facebook

YouTube Instagram Twitter Google + Facebook